62 Anos do Maior Acidente do Automobilismo

Neste dia 11 de junho, no ano de 1955, aconteceu o maior acidente de toda a história do Automobilismo Mundial.

No final da tragédia a contagem foi de um piloto morto, oitenta e três espectadores também mortos além de cerca de 120 outros feridos, com variados graus de ferimentos.

Foi durante a 23ª edição da famosa – na verdade a mais famosa – prova do Automobilismo Mundial, a 24 Horas de Le Mans, que tudo aconteceu.

Era uma época muito insegura, tanto para os pilotos, quanto para os espectadores. Muros? no máximo de 1,5 metros de altura. Boxes? na própria reta de chegada, isto é, na mesma pista de rolagem, não separados como existe há décadas – exatamente após e por causa desse pavoroso acidente ter acontecido.

Foi um dia negro na história do esporte a motor, que já tem mais de sessenta anos. O acidente matou o piloto Pierre Levegh, e as consequências da tragédia foram muitas e em vários lugares da Europa: a principal foi o abandono das competições por parte da Mercedes e a proibição das corridas em diversos países. Até hoje a Suíça não permite competições de Automobilismo por causa da enorme repercussão e tragédia nunca antes – nem depois – vista nas competições esportivas.

O grid daquele ano estava bem equilibrado, mas duas fabricantes (a inglesa Jaguar e a alemã Mercedes) eram destacadamente as favoritas à vitória nessa prova – uma das mais difíceis do mundo. As enormes velocidades que os carros conseguiam atingir em Sarthe já àquela época – em um tempo em que a segurança não acompanhava o ritmo dos carros e dos pilotos e as velocidades superavam na reta os 300 km/h – qualquer acidente poderia ter proporções gigantescas, e foi exatamente isso que aconteceu, naquela sombria tarde.

Naquela corrida dois campeões mundiais da F-1 da década de 50 estavam duelando ferrenhamente. O piloto da Jaguar era Mike Hawthorn, o da Mercedes, Juan Manuel Fangio. Já a partir da largada eles travavam uma batalha digna de uma corrida de pura velocidade, não uma prova de endurance, isto é, de resistência.

Clique no esquema para ampliar...Foi assim que eles chegaram à 35ª volta, e ainda não tinham se passado três horas desde a largada.

Hawthorn era o líder e recebeu um sinal, na reta que antecedia a dos boxes, para parar e reabastecer. Sem querer dar mais uma volta – o que significaria uma grande perda de tempo -, Hawthorn cortou para a faixa da direita, logo após ultrapassar um piloto retardatário (Lance Macklin), mas então ele teve que frear fortemente sem dar muitas chances para o piloto do carro ultrapassado.

Os freios do Jaguar foram um detalhe determinante no desenrolar do horripilante acidente: seu carro já tinha a tecnologia de freio a disco, muito mais adequado às altas velocidades de Le Mans que os dos demais carros – a Mercedes inclusa -, que ainda usavam freios a tambor. Isso significava que não conseguiam desacelerar com a mesma rapidez que os carros da Jaguar.

Uma vez que Hawthorn pisou no freio, Macklin desviou para a esquerda e se colocou à frente de outro retardatário, o francês Pierre Levegh, que guiava a outra Mercedes de fábrica. O francês de 49 anos não foi capaz de desviar, acertou a traseira do Austin-Healey de Macklin e decolou.

Veja as imagens que registraram o choque – são fortes e de pouca duração, já que o repórter logo tenta escapar da morte, ele também (o vídeo tem 1min10s de duração):

O vídeo abaixo (com 2min24s de duração) tem mais detalhes e a cena do carro de Levegh voando sobre as arquibancadas e destruindo a maior parte das vítimas desse horror:

Com o forte impacto com o muro de proteção o carro da Mercedes literalmente se desintegrou, com o motor e o eixo dianteiro continuando seu voo em direção aos espectadores, que tentavam fugir desesperados, mas que foram brutalmente atingidos pelos destroços.

Foi tão brutal que vários mortos foram esmagados, tiveram decepados pedaços de seus troncos ou mesmo foram decapitados. O fato da Mercedes usar componentes de magnésio no motor piorou ainda mais o quadro de horror, com um incêndio descontrolado nos restos do carro e sobre os espectadores.

Naquele dia cerca de 300 mil pessoas estavam em Le Mans, e a versão oficial informa que a prova não foi interrompida porque os organizadores não queriam que as estradas ficassem congestionadas, atrapalhando assim o resgate de tantas vítimas. Eles divulgaram depois que 25 médicos estavam a postos no circuito, mas a imprensa local, mais tarde, informou que esses profissionais arregimentados pela organização da prova não tinham nenhuma preparação para algo tão forte e de tão grandes proporções.

O pior, na área moral, é que todos os pilotos – Fangio e seu companheiro de equipe, Stirling Moss incluídos – continuaram na corrida disputando a liderança com Hawthorn e Ivor Bueb. Apenas oito horas depois é que a equipe Mercedes decidiu se retirar da corrida, com Fangio e Moss na liderança. A prova seguiu até seu final, como se apenas um pequeno acidente, sem maior importância, tivesse acontecido.

Caçando os Culpados

Obviamente a busca pelos culpados começaram imediatamente. Pessoas próximas a Hawthorn disseram que o piloto se sentiu culpado pelo que aconteceu, mas nem todos concordaram.

Havia quem criticava Macklin pelo movimento brusco ao desviar de seu carro. Também disseram que Levegh estaria velho demais para guiar um carro tão rápido, e por isso não tinha conseguido evitar o choque.

Pierre Levegh

Entretanto Fangio sempre defendeu o francês: de acordo com o argentino, Levegh teve reflexo suficiente para lhe fazer um sinal com a mão indicando que estava reduzindo a velocidade, e assim o pentacampeão da F-1 conseguiu escapar do acidente. Fangio lhe foi grato pelo resto da vida. E a atribuição de culpa a Levegh era fácil e conveniente: ele estava morto, portanto não tinha mais como se defender.

Hoje, mais de meio século depois, e diante de todas as melhorias de segurança já vistas no esporte, dá para afirmar que os pilotos foram os menos culpados pelo trágico acidente.

Mike Hawthorn e Lance Macklin

O circuito de Le Mans em 1955 não tinha nada a ver com os padrões que apareceram décadas depois. A segurança do autódromo era precária, para dizer o mínimo. A reta era muito estreita e não havia separação entre os boxes e a pista de rolagem – assim os pilotos que faziam pit-stops tinham que desacelerar seus carros em meio aos que passavam a toda velocidade.

Fora isso, o muro das arquibancadas tinha menos de 1,5m de altura (ou seja: a proteção era quase nula para os espectadores).

Três anos depois dos acontecimentos em Sarthe, Hawthorn se tornou campeão mundial na F-1 e decidiu se aposentar logo em seguida.

Ele morreu em um acidente de carro no ano seguinte – em janeiro de 1959 -, num acidente contra, por ironia do destino, exatamente um carro da marca Mercedes numa estrada da Inglaterra.

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